O mesmo céu
Não consigo viver nesta noite alentejana e não voltar a ter doze anos. Perder-me no céu, procurar o rectângulo tosco da Ursa Maior e seguir, pontinho a pontinho a sua cauda até Sirius, a mais brilhante de todas as estrelas. Continuar o puzzle, procurar a Ursa Menor e adormecer por não a encontrar. Contar os cinco brilhos e o 'W' que me revela a Cassiopeia, e deixar fugir as estrelas cadentes, pedindo-lhes que não partam, que não me deixem já, que eu ainda não pedi o meu desejo. E suspirar a pensar como é que a via láctea, os dinossauros, eu, já com doze anos!
Não consigo olhar este céu brilhante e não ter aqui o meu pai, caminhando no silêncio comigo. A sua mão em gancho no meu pescocito magrelas, apontando-me, sonhadora, o céu: 'filha, nunca te esqueças que estás no melhor hotel do mundo, não tem cinco estrelas, tem milhões'. E eu a acreditar em todas as suas palavras, eu a contar as estrelas, uma a uma.
Não consigo estar nesta noite sem este silêncio, a conversa vadia dos animais ao longe, a nossa sombra, ao luar.
[... e afinal são só doze anos e tenho a vida inteira, todo o tempo do mundo para te fazer uma pessoa feliz]
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