In the wating line*
Hoje levei um coice da minha mula. E foi cá com uma força! Ela coitadita, acho que nem se apercebeu, que eu até acho que ela gosta de mim, porque sabe que eu sou perdido por ela. Mas é que foi daqueles assim bem puchadinhos atrás, ainda consegui fintar uma das patas que me roçou ao de leve, mas a outra, bem em cheio no peito! Enterrou-se aqui dentro, dividiu-me em dois, e começou a picar, depois a doer, não, começou mesmo a arder, como uma azia angustiada que nem com anti-ácidos. Enquanto me estatelava, ocorreu-me que raio se teria passado, porque é que hoje, justo hoje (!), lhe tinha dado para a razão, logo ela que não é um animal racional, tem manias mais para o emocional! bicho estranho, este meu amor, esta minha mula...
Bem sei que lhe pedi para vir comigo no carro, e ela não é dada a acrobacias, qu'isso é mais comigo; da última vez meti-me num caixote de uma LCD de 47", e a coisa era mesmo à justa, mas consegui, ah se consegui, que grande contorcionista, digo-vos eu!
Oh diabo, que já são horas de lhe dar de comer outra vez, e continuo aqui feito parvo, deitado, prostrado. O melhor é levantar-me, sacudir-me e fingir-me mais direitinho, vou ajudá-la a escolher um pedaço de palha dos mais tenros, que acho que a mula se me vê assim vai ficar entristecida.
E depois vou fazer-me à estrada e seguir uma lebre bem apetrechada, turbo injection, 2700 cavalos e lá vou eu a toda a potência sem a minha mula. Quando chegar vou mudar a camisa, encardida com a queda e trocar os botões de punho, parece que estão partidos.
... ou então vou buscá-la ao hangar lá no Prior Velho... gosto tanto de ti, mula!
[*Zero7]
[Nota da a.: Lebre é o nome dado na gíria automobilística ao carro 'batedor' que vai à frente para estimular a velocidade dos carros de corrida]
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