Sunday, 27 May 2007

Fantasias

... Ela, por seu turno, alheia ao fim de tarde que preguiça lá fora, do lado de lá da vida, avança seduzida para o corpo dele nu sombreado a contraluz. Quer amaciá-lo, tocá-lo ao de leve, roçá-lo invisível, apalpá-lo em braille, e os mamilos apenas, na ponta da sua língua. Por onde te começo? ele pergunta. Mera retórica para quem sabe exactamente por onde a começar e são já dele as torrentes que os seus dedos longos, suaves, destaparam com uma curiosidade possessiva. Tentando articular um pensamento, que entretanto se derrete sob o odor agri-doce que ele suavemente espalha sobre ela (ou será ela sobre ele?), tentando, que ele a queira mais que tudo, só a ela; e é a vontade tão forte que não chega o saborear, trincar, lamber, chupar, porque nem todo ele, bebido e engolido de uma só vez, acalma a agitação frenética, a vontade quase absurda que ele a invada, mergulhe nela, se afogue, enquanto agarra um suspiro perdido que a reclama para ele. 'És minha', nas veias que saltam dos seus braços, 'és minha' nos músculos que se contraem ritmados, 'és minha' nas mãos frias, firmes, a puxar as suas ancas, 'és minha', nos cabelos da nuca, 'és minha' no fim das suas costas, 'és minha' na sua boca, ... sou...
...vinda do nada uma palmada de estalo, ruidosa e vermelha, despenha-se nas nádegas dela.
- Está bem lavadinha, está?
não a palmada, mas a voz dele, penetrante e quente, acorda-a da fantasia que a fez demorar-se no banho muito para além do razoável - O jantar está pronto - informa, enquanto ela lhe lança um olhar húmido, atrevido, irrecusável. Regressa-lhes dominadora aquela vontade veemente e obsessiva - e se nos comêssemos como se não fôssemos casados? - e ainda escorregadia já se insinua de novo nele.

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