Monday, 14 May 2007

Saiu-me assim

Há coisas que não se dizem. Não por serem má educação, como um foda-se dito com convicção [há lá melhor alívio que um bom palavrão?]; Não porque não se deve, como falar de anões a pessoas ridiculamente pequenas ou lembrar desastres aéreos na fila do check-in, enquanto se procura o bilhete por entre a gabardina e a pasta do PC; Também não são aquelas coisas que magoam ‘porque é que tens uns joanetes tão grandes?’, ou as palavras com mais de 15 letras, como otorrinolaringologista, ou até aquelas coisas que se dizem mas não se pensam; Não, são as que descrevem o nosso mais íntimo querer, que trepam, indecentes, pelas nossas entranhas e saem num disparo desconcertante, para quem as ouve, fazendo um violento ricochete para quem as diz. Não podia ser um convite para um café, um cigarro partilhado na penumbra da noite, uma boleia para casa, um qualquer pedido suplicado por entre choros e convulsões; não, chega-me assim, na forma de um tudo ou nada agonizado num olhar tardio, que te obriga a desfazeres a tua razão, a abalroares as convicções a que sempre te encostaste (preguiçoso!), e assim, num impulso, um convite indecente, patético, para partilhares comigo todos os pedaços de ti, da tua filosofia, da tua vida. Toda. não me vais ouvir, j. Pois não, porque [agora me lembro] há coisas que simplesmente não se dizem.

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