Um porta-chaves, um apito, 12 chaves
Ao toque é frio, sempre tive esta sensação única a tocar no ferro brilhante. Não é como aquelas coisas enferrujadas que ao toque nos são ásperas e se nos entranham pelo meio dos dedos, aquele cheiro que demora dias a desaparecer. Este não, é límpido, apesar de velho, tem as suas rugosidades, mas nada de ferrugem. O círculo de onde se dependuram os objectos, 12 chaves, um apito, tem as duas voltas habituais e tantas vezes já se foi abrindo para dar as boas-vindas a novos inquilinos que com o passar do tempo se tornou laço (que alívio, não gosto da arrogância de um porta-chaves novinho em folha que me faz sofrer para o estrear). É uma passagem de modelos de chaves. Há-as grandes, pequenas, com ranhuras bem demarcadas ou já gastas, gordas amantes de canhões em cruz, ou as pequeninas da caixa do correio, que disfarçam a ânsia da curiosidade, mesmo quando há anos só recebemos as contas da EDP e os panfletos de excursões às Grutas de Mira D’Aires com direito a uma garrafa de azeite de 5 litros. Até a chave do cofre, um cofre velho, castanho, comprado na feira da ladra num dia de ressaca, até essa lá está. Nunca é usada, mas faz parte da colecção, e para além disso é das mais vistosas, pequena mas pesada, a cabeça em trevo aberto, sim, está ali porque é onde deve estar. Mais umas 5 chaves que ninguém sabe de onde são. São todas parecidas, a marca marsil cravada a itálico numa das faces, mas com letras diferentes de umas para as outras. Talvez fossem do portão de trás de casa dos pais, ou da Casa de Lagos, que entretanto venderam quando a mãe ficou doente. Não sei, ninguém sabe o que fazem ali aquelas chaves, mas se estão lá, estão onde devem estar. Existe ainda um par de gémeas, à primeira vista, são totalmente idênticas, não fosse uma ligeira mancha amarelada distinguir a mais velha. São chaves sem história, manas por causa das férias em que teve de deixar uma chave para a D. Susaninha ir dar comida ao cágado, e outra ao pintor, que ia retocar os tectos, cansados do caruncho da humidade do rés-do-chão. O apito, o apito é a peça mais pesada do conjunto, está seco, mas cheira a cuspo, a marca do seu uso nos treinos de râguebi nas traseiras da rua. Eles não eram como os meninos da Agronomia, ali cada um fazia pela vida, e cada semana havia um treinador. Assim ninguém se armava em chefe, ou pensava que valia mais que os outros. Todos apanhavam porrada por igual, e o apito, esse era partilhado, para obrigar o seu guardião a nunca faltar aos treinos. Tem as marcas das dentadas furiosas nos dias de chuva em que a preguiça tomava conta da equipa; as lascas dos pedregulhos, onde o treinador descarregava o seu desprezo. É um porta-chaves igual a tantos outros, mas tem este cheiro a partilha, a sacrifício, a dedicação. Guarda os gritos de alento, as palmadas nas costas e os chutos no rabo, as discussões acaloradas, as lágrimas de raiva que lavaram tristezas e comoveram alegrias. Um porta-chaves com um apito, que está exactamente onde deve estar.
No comments:
Post a Comment