Uma velha fotografia
Sentia-se enrugada, mas sobretudo esquecida dos tempos em que andava de mão em mão exibida a alguém que transbordava de orgulho por ela ser quem era; ela, fotografia velha espreitando de soslaio a janela, apenas por uma ponta dobrada que caia de um livro, também ele velho, e por momentos sufocava, se se detinha a pensar que lá fora havia tanto ar e ali, só escuridão, ácaros, solidão.
Com os anos aprendera a viver com as marcas no papel, as rugas na cara outrora jovem daquele homem hirto empunhando um uniforme, deixando escapar um sorriso, enquanto um pássaro lhe pousava no ombro. Aprendera a viver sem o calor daquele dia africano, sem o som dos praças que gozavam a pose pomposa, sem a covinha que fugiu, naquele momento, para o rosto de um homem que se queria sério.
Tinha-se despedido de todas as cores que não chegou a conhecer, aceitando os tons pastel já esborratados a sépia. Com o rasgar do tempo, aprendeu a esperar por um outro olhar que se detivesse naquele pequeno rectângulo de saudade, um sorriso que se esgueirasse naquele lembrar de que o que foi não volta a ser [mesmo que muito se queira].
Tinha-se despedido de todas as cores que não chegou a conhecer, aceitando os tons pastel já esborratados a sépia. Com o rasgar do tempo, aprendeu a esperar por um outro olhar que se detivesse naquele pequeno rectângulo de saudade, um sorriso que se esgueirasse naquele lembrar de que o que foi não volta a ser [mesmo que muito se queira].

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